O Primeiro Ensaio Clínico Low-Carb vs. Low Fat da História

Incontáveis passagens bíblicas entrecruzam o tema da Religião e de algumas práticas alimentares. Nesta postagem, vamos explorar o que nos diz o livro do profeta Daniel (Dn 1:1-16).

O trecho narra o episódio em que Nabucodonosor selecionou jovens filhos de Israel para assistirem no palácio do rei, durante o sítio babilônico. O rei determinou-lhes uma ração composta de carne e vinho, consideradas iguarias. Daniel, que não queria se contaminar com a comida real, recusou-a. A “contaminação” a que o Livro se refere devia-se ao fato das carnes não serem  apropriadas segundo a tradição judaica (cf. Levítico) e do vinho ser usado muitas vezes como oferecimento aos ídolos.

Sua recusa porém exporia o chefe dos eunucos, então incumbido de cuidar bem dos israelitas. Caso estes parecessem aos olhos do rei com os “rostos mais tristes” que os demais jovens de outras nações – o que poderia ser entendido como maus tratos – o chefe dos eunucos poderia ser penalizado.  Severamente penalizado.

Daniel propôs então um ensaio clínico controlado. Ao futuro profeta e a amigos israelitas seriam servidos – sem o conhecimento do rei – apenas de legumes e água. Para os demais jovens de outras nações, seriam servidas as iguarias do rei. Os grupos INTERVENÇÃO  (legumes + água) e CONTROLE (carne + vinho) seriam comparados ao fim de dez dias.

Passado o período de exposição, o chefe dos eunucos retornou para comparação entre os grupo.  Ele observou que os jovens israelitas “estavam mais gordos de carne do que todos os jovens que comiam das iguarias do rei“.

Provavelmente este é não apenas um dos primeiros ensaios clínicos controlados da história: é também o primeiro estudo a avaliar comparativamente intervenções… low carb vs. low fat.

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Notas: 1) Icone de São Daniel, da Arquidiocese Ortodoxa Grega da América; 2) trecho extraído do portal www.bibliacatolica.com.br/biblia-ave-maria (Ed. Ave Maria)

 

Dieta Cetogênica: Potenciais Aplicações em Neurologia

A dieta Atkins modificada é um desenho de dieta pertinente à família das dietas cetogênicas, utilizada em cenários de doenças metabólicas, epilepsia, entre outros. Alguns estudos têm investigado o papel de abordagens cetogênicas em outras doenças neurológicas como a Esclerose Múltipla (EM).

Um estudo com número pequeno de pacientes foi recentemente publicado. O objetivo era demonstrar a aderência à estratégia, além de escores de fadiga, depressão e níveis de adipocinas durante a adoção da modalidade.

A aderência no geral foi boa, com poucas desistências ao fim dos 6 meses de acompanhamento. No grupo que levou até o fim o padrão alimentar, observou-se redução da massa corporal gorda, dos escores de fadiga e depressão e dos níveis séricos de leptina. Nenhum paciente apresentou ativação da doença no período, mas a investigação não teve um grupo controle (não-cetogênico), com dieta convencional.

Nesta observação, a dieta cetogênica foi bem tolerada. Embora limitada para acrescentar novos conhecimentos sobre controle de recorrência, pode ser considerada como uma modalidade no controle de peso e da composição, por exemplo, aos quais pacientes com EM não estão imunes.

Referência: Brenton JN et al. Pilot study of a ketogenic diet in relapsing-remitting MS.Neurol Neuroimmunol Neuroinflamm. 2019 Apr 12;6(4):e565.

Resistência Insulínica e Síndrome de Ovários Policísticos

A Síndrome de Ovários Policísticos (SPO) está associada à resistência insulínica e maior risco de desenvolvimento de diabetes. Uma das maneiras de se identificar a intolerância à glicose – e consequentemente a resistência insulínica – é através da realização de testes orais de tolerância (TOT). Cree-Green e cols. estudaram a utilidade de testes mais simples do que o TOT tais como o HOMA-IR, Matsuda e o e-IS como proxys para diagnóstico e acompanhamento clínico. O e-IS com corte <0,63 foi o que mostrou melhor desempenho na curva ROC (sensibilidade de 100% e especificidade de 71%). A insulinemia de jejum > 22 IU/mL  mostrou bom desempenho também (sensibilidade = 0,88 e especificiade = 0,78). A conclusão dos autores é que os exames e-IS e insulina de jejum – que podem ser obtidos sem a necessidade de realização do teste oral de tolerância à glicose – podem ser utilizados clinicamente para a condução de pacientes com SOP.

Referência:  Cree‐Green M et al. Using simple clinical measures to predict insulin resistance or hyperglycemia in girls with polycystic ovarian syndrome. Pediatr Diabetes. 2018 Dec;19(8):1370-1378.

Alimentos Viciantes: o que eles têm em comum?

Algumas comidas  são viciantes. E não é força de expressão. São mesmo. Isso acontece por que os sistemas de recompensa cerebral “entendem” como um bem alimentos de alta densidade calórica, saborosos e de textura que facilite a digestão. O engenho humano conseguiu ao longo da história combinar essas três características em formas alimentares altamente apelativas ao nosso apetite.

Procure estar atento, de preferencia antecipadamente, quando da exposição aos seguintes alimentos:

PÃO – QUEIJO – CHOCOLATE – CHURRASCO – FEIJOADA – SORVETE – DOCES EM GERAL – SALGADINHOS – BISCOITO RECHEADO – NUTELLA(R) E CONGÊNERES

Notou como em todos os componentes da lista compartilham de certo modo um alto grau de densidade calórica, sabor e textura?

Referência: Queiroz de Medeiros et al. Food cravings among Brazilian population. Appetite, 2016; 108:212–218. doi:10.1016/j.appet.2016.10.009

 

Nutrologia, Propaganda e Comportamento

A propaganda sempre teve um papel – não é de hoje – na persuasão do mercado consumidor, a fim de criar uma visão favorável de produtos alimentícios. Ela tem pode ser fator complementar na fixação de comportamentos e hábitos de consumo. Sobretudo se o produto alimentício falar diretamente ao nosso paladar. Como no exemplo abaixo. Refrigerantes com alta carga de açúcares simples precisam de poucos “argumentos” para serem facilmente aceitos e, mais do que isso, procurados (já discutimos em postagens anteriores o impacto neuro-comportamental dos alimentos ultra-processados).

Apesar de nos soar datado, a chamada publicitária é feita com uma redação persuasiva para o mercado americano da década de 50-60. Não se iludam: estamos expostos aos mesmos argumentos persuasivos em nossa época, como o repositor para a atividade física, o refrigerante que é um estilo de uma geração, um bombom que é alegria pura, e por aí vai…

“Por que temos os mais jovens clientes no negócio? Este jovem cliente tem apenas 11 meses e não é – de longe – nosso cliente mais novo. Por que 7-Up é tão puro, tão saudável, que você pode dá-lo a bebês, e ficar com a consciência tranquila quanto a isso. Leia o rótulo de uma garrafa de 7-Up. Perceba que todos os nossos ingredientes estão listados. (Veja, isso não é obrigatório para refrigerantes – mas estamos orgulhosos de fazê-lo e imaginamos que você ficaria agradecido em saber). Aproveitando, Mamães, quando eles se tornarem maiores, e precisarem ser persuadidos a beberem leite, experimente o seguinte: coloque partes iguais de leite e de 7-Up, lentamente adicionado. É uma combinação saudável – e funciona! Faça de 7-Up a bebida de sua família… Você gosta dele… e ele gosta de você!”

Ref.: https://repository.duke.edu/dc/protfam/prfad02131

 

Com fome, ninguém faz dieta.

Por isso, é fundamental o controle do apetite.

Segundo a hipótese de “alavancagem” (protein leverage), a saciedade não acontece até que uma determinada cota proteica diária, espécie-específica, seja alcançada.

No caso de dietas com menor teor proteico, ou com uma combinação que peque pelo reduzido poder sacietógeno, o indivíduo aumenta a ingestão até chegar à cota proteica de saciedade.

Agora imagine isso com a dieta da padaria? Pães, massas, bolos, biscoitos…

Já viu né?

Quer saber mais? Marque uma consulta com a gente.

Referência: Simpson Obesity: the protein leverage hypothesis. Obesity Reviews, 2005; 6(2), 133–142. doi:10.1111/j.1467-789x.2005.00178.x

Hábitos Saudáveis, Saúde do Colaborador e Resultados Operacionais.

Você sabia que é possível ajudar seus colaboradores a adotar hábitos alimentares mais saudáveis?

Sim. É possível.

E com isso você contribui reduzindo o consumo alimentos ultra-processados, sabidamente associados à diabetes, obesidade e hipertensão arterial, sono de pior qualidade e depressão e… absenteísmo.

Não esqueça: a saúde é um fator fundamental da performance de seu colaborador.

Interessado em projetos para sua organização? Contacte-nos.

Referência: Sutliffe JT et al. A Worksite Nutrition Intervention is Effective at Improving Employee Well-Being: A Pilot Study. J Nutr Metab, 2018. DOI: 10.1155/2018/8187203

Por que é tão difícil desapegar dos doces?

Notou como é difícil desapegar dos doces no início de um regime? 

Não. Não é um problema só seu.

É da natureza do organismo cronicamente exposto à cargas elevadas de glicose e carboidratos. 

O estímulo prolongado desses nutrientes, além dos efeitos metabólicos, é capaz de induzir alterações comportamentais, aumentando cada vez mais a tolerância (e a insaciedade) pelo sabor adocicado.

Por isso as fases iniciais são mais difíceis. Mas para tudo há uma técnica…

Procure sempre um profissional capacitado. E se ficou com dúvidas, contacte-nos.

Referência: Rodin et al. Metabolism 1985, 34(9). 

É necessário mesmo correr para iniciar minha jornada de perda de peso?

Exercícios de baixa a moderada intensidade podem sem utilizados de modo inteligente, como parte de uma estratégia de perda de gordura corporal.

A gordura é o combustível preferencial nas atividades de menor intensidade.

Além disso, antes que haja perda mais significativa de peso, é necessário proteger as articulações do impacto causado pelo sobrepeso.

Caminhar é um ótima abordagem inicial.

Exercite-se! E começe a fazê-lo exercitando a criação do hábito da caminhada.

Quer saber mais? Contacte-nos!

Referência: Romjim et al. Regulation of endogenous fat and carbohydrate metabolism in relation to exercise intensity and duration. Am J Physiol 1993;265:E380-91.

Açúcar e recompensa

O apetite dirige os animais à procura de alimentos para o sustento do próprio organismo. Quando o animal se alimenta do que lhe é próprio, ele goza no benefício causado pelo alimento, como saciedade, bem estar, e reposição do déficit energético. Esse conjunto de respostas de reforço positivo é integrado no sistema nervoso central e recebe o nome de centros de recompensa.

Nesse sentido, pode-se enxergar sua importância na história evolutiva das espécies. Imagine se as funções de reprodução por exemplo não fossem agradáveis aos indivíduos? A reprodução das espécies estaria ameaçada certamente. No caso da alimentação, mecanismos de recompensa reforçam de modo positivo o comportamento do indivíduo entram em cena após a  escolha do alimento nutricionalmente bom para o organismo. Nesse caso, aquilo que o corpo lê como bom são alimentos caloricamente densos, saborosos e seguros.

Na história evolutiva do homem, de poucos séculos para cá, e sobretudo a partir da segunda metade do século XX uma grande reviravolta se deu. Os alimentos nunca estiveram tão prontamente acessíveis, tão palatáveis, tão densos e tão seguros do ponto de vista de tempo de validade. O resultado disso é a superexposição a um estímulo alimentar muito mais potente do que aquele no qual nos desenvolvemos como espécie. Tão potente que não temos estruturas neurais capazes de assimilar tamanha intensidade sem alterar o comportamento regular.

Alimentos ultra-processados com alta carga de açúcar são exemplos desse tipo de alimentos com a potência suficiente para promover não apenas a desregulação dos sistemas de recompensa cerebral (SRC) mencionado acima, mas também sua estrutura neural [1]. A consequência disso é a desregulação do eixo necessidade energética – fome – equilíbrio energético – saciedade. A recompensa descola-se de sua base fisiológica e passa a ser o próprio motor desse circuito. E em virtude disso, temos à reboque todas as consequências hormonais da exposição continuada a alimentos com alto potencial de recompensa.

Referência

[1] Olszewski et al. Excessive Consumption of Sugar: an Insatiable Drive for Reward. Curr Nutr Rep. 2019 Jun;8(2):120-128. doi: 10.1007/s13668-019-0270-5. .DOI: 10.1007/s13668-019-0270-5