Gestação, Diabetes e Autismo: um alerta.

Um estudo tipo coorte retrospectiva envolvendo mais de 35 mil casos de gravidez apontou risco aumentado de ocorrência de autismo e distúrbios correlatos em filhos de mães com níveis de hemoglobina glicada (HbA1c) > 6.5%. Embora o número total de crianças acometidas tenha sido pequeno (n=15), a associação mostrou-se significativa.

O estudo tem alguma limitações como a escassez de informações sobre o controle glicêmico ao longo da gravidez, fatores de riscos pré-natais, fatores de risco paternos e um número relativamente pequeno de grávidas com HbA1c > 6.5%. De qualquer modo, até que esse tópico seja esclarecido, vale ligar o “pisca-alerta” para as gestantes que apresentem este dado clínico a fim de proceder aos ajustes nutrológicos pertinentes. 

 

Referência: Xiang AH et al. Hemoglobin A1c Levels During Pregnancy and Risk of Autism Spectrum Disorders in Offspring JAMA. 2019 Jun 9. doi: 10.1001/jama.2019.8584.

Resistência Insulínica e Síndrome de Ovários Policísticos

A Síndrome de Ovários Policísticos (SPO) está associada à resistência insulínica e maior risco de desenvolvimento de diabetes. Uma das maneiras de se identificar a intolerância à glicose – e consequentemente a resistência insulínica – é através da realização de testes orais de tolerância (TOT). Cree-Green e cols. estudaram a utilidade de testes mais simples do que o TOT tais como o HOMA-IR, Matsuda e o e-IS como proxys para diagnóstico e acompanhamento clínico. O e-IS com corte <0,63 foi o que mostrou melhor desempenho na curva ROC (sensibilidade de 100% e especificidade de 71%). A insulinemia de jejum > 22 IU/mL  mostrou bom desempenho também (sensibilidade = 0,88 e especificiade = 0,78). A conclusão dos autores é que os exames e-IS e insulina de jejum – que podem ser obtidos sem a necessidade de realização do teste oral de tolerância à glicose – podem ser utilizados clinicamente para a condução de pacientes com SOP.

Referência:  Cree‐Green M et al. Using simple clinical measures to predict insulin resistance or hyperglycemia in girls with polycystic ovarian syndrome. Pediatr Diabetes. 2018 Dec;19(8):1370-1378.

Gordura Visceral: Um órgão disfuncional na obesidade

Em indivíduos obesos, a capacidade de estocagem de gordura que surge na circulação após as refeições parece estar diminuída em relação a indivíduos magros, como se pode observar pelo comportamento de clearence na circulação dos quilomicrons (carreadores da gordura alimentar).

A figura do estudo referenciado mostra que mesmo nos momentos das refeições (linhas verticais tracejadas), os ácidos graxos livres não-esterificados (NEFA) não variam de modo importante, mostrando que não há mobilização maior destas reservas entre os obesos nos curtos intervalos entre as refeições.  Além disso, os níveis de triglicerídeos provenientes da alimentação perduram muito tempo na circulação. Este fato pode justificar a disponibilidade de gordura livre para deposição ectópica em tecidos como fígado, contribuindo para a evolução de esteatose hepática.

Figura: Concentrações plasmáticas arteriais de NEFA ou ácidos graxos não esterificados(A), Triglicerídeso TG (B), glicose (C), e insulina (D) in individuos magros (●) e com obesidade abdominal  (○).

Referência: McQuaid SE. Downregulation of adipose tissue fatty acid trafficking in obesity: a driver for ectopic fat deposition? Diabetes. 2011 Jan;60(1):47-55. doi: 10.2337/db10-0867. Epub 2010 Oct 13.