Açúcar e recompensa

O apetite dirige os animais à procura de alimentos para o sustento do próprio organismo. Quando o animal se alimenta do que lhe é próprio, ele goza no benefício causado pelo alimento, como saciedade, bem estar, e reposição do déficit energético. Esse conjunto de respostas de reforço positivo é integrado no sistema nervoso central e recebe o nome de centros de recompensa.

Nesse sentido, pode-se enxergar sua importância na história evolutiva das espécies. Imagine se as funções de reprodução por exemplo não fossem agradáveis aos indivíduos? A reprodução das espécies estaria ameaçada certamente. No caso da alimentação, mecanismos de recompensa reforçam de modo positivo o comportamento do indivíduo entram em cena após a  escolha do alimento nutricionalmente bom para o organismo. Nesse caso, aquilo que o corpo lê como bom são alimentos caloricamente densos, saborosos e seguros.

Na história evolutiva do homem, de poucos séculos para cá, e sobretudo a partir da segunda metade do século XX uma grande reviravolta se deu. Os alimentos nunca estiveram tão prontamente acessíveis, tão palatáveis, tão densos e tão seguros do ponto de vista de tempo de validade. O resultado disso é a superexposição a um estímulo alimentar muito mais potente do que aquele no qual nos desenvolvemos como espécie. Tão potente que não temos estruturas neurais capazes de assimilar tamanha intensidade sem alterar o comportamento regular.

Alimentos ultra-processados com alta carga de açúcar são exemplos desse tipo de alimentos com a potência suficiente para promover não apenas a desregulação dos sistemas de recompensa cerebral (SRC) mencionado acima, mas também sua estrutura neural [1]. A consequência disso é a desregulação do eixo necessidade energética – fome – equilíbrio energético – saciedade. A recompensa descola-se de sua base fisiológica e passa a ser o próprio motor desse circuito. E em virtude disso, temos à reboque todas as consequências hormonais da exposição continuada a alimentos com alto potencial de recompensa.

Referência

[1] Olszewski et al. Excessive Consumption of Sugar: an Insatiable Drive for Reward. Curr Nutr Rep. 2019 Jun;8(2):120-128. doi: 10.1007/s13668-019-0270-5. .DOI: 10.1007/s13668-019-0270-5

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